sábado, 16 de agosto de 2014

‘Feminismo Intersecional’. Que diabos é isso? (E porque você deveria se preocupar)


Descrição para cegos: cartaz com o slogan "Por mim, por nós e pelas outras" escrito.
Feminismo. Feminismo Negro. Transfeminismo. Feminismo Intersecional? O fato de que existem mulheres e as suas particularidades, sejam inseridas em uma ordem econômica, social, étnica ou cisgênera fez com que surgisse o feminismo intersecional. Ele engloba essas singularidades, que provocam privilégios, preconceitos ou até discriminação, inserindo-os no âmbito social. No texto a seguir, Ava Vidal aborda a intersecionalidade. (Carolina Ferreira)

Publicado originalmente com o título: ‘Intersectional feminism’. What the hell is it? (And why you should care) no site do jornal inglês The Telegraph, em 15/01/2014. Republicado por Blogueiras Feministas, em 24/07/2014, clique aqui.
Por Ava Vidal
A intersecionalidade é um termo cunhado pela professora norte-americana Kimberlé Crenshaw em 1989. O conceito já existia, mas ela deu um nome a ele. A definição segundo seu livro é:
A visão de que as mulheres experimentam a opressão em configurações variadas e em diferentes graus de intensidade. Padrões culturais de opressão não só estão interligados, mas também estão unidos e influenciados pelos sistemas intersecionais da sociedade. Exemplos disso incluem: raça, gênero, classe, capacidades físicas/mentais e etnia.

Em outras palavras, certos grupos de mulheres têm que lidar com múltiplas facetas na vida, que possuem diferentes camadas. Não há um tipo de feminismo tamanho único. Por exemplo, eu sou uma mulher negra e, como resultado, enfrento tanto o racismo como o sexismo ao caminhar em minha vida cotidiana.
Mesmo com o conceito de intersecionalidade rondando o femininsmo há décadas, parece que ele só foi incluído no debate majoritário no ano passado ou alguns anos atrás. E, ainda assim, muitas pessoas estão confusas com o seu significado ou o que ele representa.
Não ajuda em nada que, nos últimos meses, as mensagens difundidas sobre o feminismo intersecional tenham sido um pouco confusas. No último programa “Hora da Mulher de 2013” da BBC Radio 4, a feminista negra Reni Eddo-Lodge foi convidada para debater como foi o ano do feminismo. Ela começou a falar sobre intersecionalidade e racismo estrutural, mas foi seguida por Caroline Criado Perez, que escolheu aquele momento para falar sobre insultos que ela havia recebido na internet vindos de pessoas que a atacaram sob o pretexto, segundo ela afirmou, da intersecionalidade.
Eu preciso avisar que Eddo-Lodge não foi responsável por nenhum dos insultos que ela recebeu, mas a conversa descarrilou e a oportunidade que ela teve de falar sobre o assunto para uma grande audiência, num programa popular de rádio, foi perdida.
Caroline Criado Perez, posteriormente, se desculpou.
Independentemente disso, o que realmente importa aqui é: as pessoas estão interessadas em saber o que é intersecionalidade e como isso as afeta? Estou ansiosa para redirecionar essa conversa de volta ao tema da intersecionalidade no feminismo e o que isso realmente significa.
Para mim, o conceito é muito simples. Como feminista negra, eu não desculpo Chris Brown por agredir fisicamente sua (então) namorada Rihanna, mas sou contra que alguém o descreva como um ‘preto s****o’, do mesmo modo que uma mulher branca fez comigo. Isso não significa que eu apoio a violência doméstica, como ela, então, me acusou de fazer. Isso significa que eu, como a maioria das mulheres negras, não suporto o racismo.
A principal coisa que a ‘intersecionalidade’ está tentando fazer, eu diria, é evidenciar que o feminismo, que é excessivamente branco, classe média, cisgênero e capacitista, representa apenas um tipo de ponto de vista — e não reflete sobre as experiências de diferentes mulheres, que enfrentam múltiplas facetas e camadas presentes em suas vidas.
Roqayah Chamseddine é uma feminista e escritora que explica isso melhor, dizendo: “O feminismo branco é extremamente reticente e se recusa a reconhecer os obstáculos que as mulheres não-brancas enfrentam sistematicamente, já que elas não são visíveis. Nossas vozes precisam ser ampliadas porque o feminismo branco nos trata como um troféu e usurpa nossas vozes.”
Então, até que o movimento feminista majoritário comece a ouvir os diferentes grupos de mulheres dentro dele, ele vai continuar a estagnar e não será capaz de seguir em frente. O único resultado disso é que o movimento torna-se fragmentado e continuará a ser menos eficaz.
Racismo no feminismo
Sempre que o tema do racismo é levantado no feminismo, não é diferente de quando esse tema é proposto em qualquer outro espaço de debate. Os discursos banais habituais são usados e a acusação de “dividir o movimento” é muitas vezes atirada ao redor.
A frase “verifique seus privilégios” que geralmente acompanha muitas discussões sobre intersecionalidade, é um exemplo. No Twitter, no início de janeiro, houve uma hashtag iniciada por uma feminista branca: #ReivindicandoIntersecionalidadeEm2014; que levou muitas feministas negras a questionarem como ela pretendia recuperar algo que nunca tinha sido dela em primeiro lugar.
Mas isso prova que o conceito realmente tornou-se popular, agora que há o risco de ser apropriado.
Há a crença equivocada de que o único “privilégio” que você pode ter se refere à cor da pele. Este não é o caso. Você pode ser privilegiado por causa de sua classe social, formação educacional, religiosa, ou pelo fato de que você tem capacidades mentais e físicas ou é cisgênero. Um monte de mulheres negras podem e têm privilégios também.
Um usuário do Twitter disse: “O fato de que um importante conceito feminista foi… empurrado para dentro das discussões majoritárias irrita as feministas brancas que se recusam a reconhecer que elas se beneficiam de um sistema patriarcal, supremacista, heteronormativo e branco.”
Veja esta citação da famosa feminista negra e mulherista Alice Walker, que disse: “Parte do problema com as feministas ocidentais, eu acho, é que elas se comparam com seus irmãos e seus pais. E isso é um problema real.”
Eu lembro de uma discussão que tive com uma senhora muçulmana que me disse: “Eu odeio o feminismo. Não há necessidade para isso existir e eu não quero ter que carregar caixas pesadas só porque vocês, mulheres, querem lutar para serem iguais aos homens.”
O quê?! Eu tive que enumerar algumas coisas para ela. Primeiro de tudo, o feminismo não é sobre ter o direito de carregar caixas pesadas. E, como uma mulher negra que mede 1,80m de altura, posso assegurar-lhe que ser vista como fraca fisicamente não foi um problema que eu tive que enfrentar na minha vida adulta. Na verdade, nas poucas ocasiões em que pedi ajuda a homens por causa de um objeto pesado, eles riram de mim e disseram coisas como: “Vamos lá, amor! Não finja que você não consegue lidar com isso. Uma moça robusta como você!”
Enquanto conversávamos, ficou evidente que o problema dela era com o feminismo majoritário. Ou seja, o feminismo que é esmagadoramente branco, classe média, cisgênero e capacitista. Quando vozes são marginalizadas dentro de um movimento, até o ponto em que há mulheres que nem sequer pensam que o feminismo é para elas, o único resultado disso é que o movimento está enfraquecido e cada vez menos eficaz. Por exemplo, tenho ouvido as feministas tradicionais que estão tentando proibir o véu apesar da resistência de mulheres muçulmanas, afirmam que elas não sabem o se passa em suas próprias mentes, e querer usar o véu é o resultado óbvio dessa doutrinação.
Então, o que podemos aprender com tudo isso? Como vimos, em discussões acaloradas numa rádio no final do ano passado, é fácil nos atolarmos em palavras e em discussões no estilo ele-disse-ela-disse, o que isso significa e o que aquilo significa.
Intersecionalidade ainda é um termo relativamente novo para as massas — mas, sua mensagem é algo com o qual certamente qualquer feminista pode estabelecer uma relação ao começar a ouvir e incluir diferentes grupos de mulheres, suas múltiplas facetas e experiências de vida nos debates em geral e respeitá-las.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Concurso “Iniciativas de Promoção da Igualdade de Gênero” abre inscrições na América Latina e Caribe

Descrição para cegos: mulher mostra uma placa com a palavra "Igual' escrita.
    O Banco Mundial abriu as inscrições para o concurso “Iniciativas de Promoção da Igualdade de Gênero”. Pode participar qualquer profissional da América Latina e do Caribe que tenha experiência em abordagens, programas, políticas, iniciativas, processos, que levem a melhores resultados para as áreas-alvo como a gravidez na adolescência, violência doméstica ou a participação das mulheres nos processos de tomada de decisão.
Será escolhida pelo menos uma iniciativa em cada área e os vencedores vão participar de uma cerimônia na sede do Banco Mundial em Washington, em novembro. Cada iniciativa vencedora ganhará apoio técnico e material para a promoção de seus projetos.
As inscrições vão até 1° de Setembro de 2014. Para mais informações sobre o concurso e para a ficha de inscrição, acesse o site do Banco Mundial. 

Taisa Vieira

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Construindo a igualdade de gênero

Descrição para cegos: cartaz da campanha do 30º prêmio da Igualdade de Gênero.

Em 2005 foi instituído pela Secretaria de Política das Mulheres (SPM-PR) o Prêmio Igualdade de Gênero que, em parceria com o Programa de Pós-Graduação CNPq/MTCI, Secretaria de Educação Continuada Alfabetização e Diversidade (SECAD/MEC), Secretaria de Educação Básica (SEBE/MEC) e UNIFEM – Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher, tem estimulado a produção de conteúdos textuais e científicos acerca das questões de gênero, desigualdade entre mulheres e homens, feminismo e as variadas manifestações de discriminação, raça e orientação sexual.
Atualmente, a premiação se divide em 5 categorias: estudante do ensino médio; estudante de graduação; graduado, especialista e estudante de mestrado; mestre e estudante de doutorado; e escola promotora de igualdade de gênero. Esta última categoria inclusa na 5º edição (2009) premia escolas públicas e privadas do ensino médio, com projetos pedagógicos e ações inovadoras que visam a promoção do ensino pró-equidade, fomentando a temática.
As premiações são computadores e equipamentos de informática (para estudante de ensino médio), bolsas de iniciação científica (para ensino médio e superior), bolsa de mestrado e doutorado, além de valor em dinheiro para as três modalidades de participação do ensino superior.

As propostas para a 10º edição do Prêmio construindo a Igualdade de Gênero devem ser inscritas até 28 de novembro de 2014 por meio do site http://www.igualdadedegenero.cnpq.br/igualdade.html. 

Jéssika Queiroz

O que é transfeminismo?

Descrição para cegos: ilustração de artista Carol Rosseti sobre transfeminismo.
Já abordamos aqui o termo transgeneridade. Agora trazemos as raízes históricas do transfeminismo, no qual são pautadas as lutas por direitos das pessoas trans* e a desconstrução binária do gênero. Deste modo, discutir sobre questões trans* é muito mais falar em identidade de gênero do que em sexualidade. Temos, então, o transfeminismo: mas, afinal, por que houve a necessidade deste empoderamento? (Carolina Ferreira)

Por Hailey Kaas
Introdução Geral
O que é transfeminismo? Como surgiu? O que o difere das correntes atuais do feminismo?
Pode-se dizer que o transfeminismo é uma corrente do feminismo tradicional, porém divergem em alguns pontos, como veremos.
Certamente, o transfeminismo bebeu dos primeiros movimentos feministas e dos conceitos feministas em si. Argumenta-se que tenha surgido no meio da segunda onda feminista, em forma de crítica e de reformulação do feminismo da época para a inclusão de pessoas trans* dentro da agenda feminista. Por isso, a segunda onda feminista foi combatida pelo transfeminismo e por novas correntes feministas (terceira onda) no que diz respeito a essencialização e biologização do corpo “feminino”.

Muito embora a terceira onda do feminismo tenha utilizado um discurso anti-essencialista e anti-biologicista para desbancar a ciência machista que tentava (tenta) comprovar machismo através de estudos altamente duvidosos e ideológicos, a compreensão transfeminista é de que o feminismo falhou nessa luta quando a questão trans* é contextualizada. Muito embora muitas correntes reproduzam com frequência a célebre frase da Simone de Beauvoir, “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher” – já desconstruindo a ideia da biologia como destino – resistem em aceitar mulheres trans* como “verdadeiras” mulheres, ou mesmo quando aceitam, não visibilizam.
O mito da mulher universal foi severamente criticado por Judith Butler no famoso livro “Problemas de Gênero – Feminismo e subversão da identidade”, onde argumenta que a pretensão feminista de haver uma mulher universal que pode ser representada, corre o risco de fracassar. Haraway também critica o mesmo em seu livro Manifesto Ciborgue.
Isso ocorreu porque o feminismo de segunda onda reforçavam a ideia de uma representação universal da mulher, afetada igualmente pelo patriarcado. Nessa lógica todas as mulheres estariam ligadas de alguma forma por um fator comum: sofrerem o patriarcado igualmente.
A terceira onda feminista tentou repensar essa lógica inserindo elementos da teoria queer, afrofeminismo (focando no racismo existente dentro do que se chamou de feminismo branco), teorias pós-coloniais e questionamentos do binário de gênero em si. No entanto, mesmo vendo o esforço de algumas correntes em inserir esses elementos na luta feminista, teveDescrição: http://cdncache-a.akamaihd.net/items/it/img/arrow-10x10.png/tem pouco efeito na prática.
Feminismo Radical
Na década de 70-80 surgiu um forte sentimento anti-trans impulsionado pelo famoso livro de Janice Raymond, intitulado “The Transsexual Empire” (O Império Transexual), onde na mesma linha de livros que argumentam existir uma “ditadura gay”, Raymond alerta sobre o “perigo” do patriarcado adentrar o feminismo na figura de mulheres trans*. Ela também reproduz todo tipo de clichê transfóbico (mulheres trans* não são mulheres de verdade; são homens se fantasiando/querendo capturar o “feminino”; são estupradoras em potencial; etc.). Esse sentimento/corrente feminista é nomeado hoje como “radical feminism” ou radfem, e é severamente combatido pelo transfeminismo e por pessoas trans* no geral, pois são inúmeros os episódios transfóbicos envolvendo feminismo radical (confira aqui na parte “criticism”, ou aqui na parte “cissexism in radical feminism”). 
Teóricxs e Ativistas Transfeministas
As vozes proeminentes do transfeminismo incluíram/incluem a famosa Sandy Stone, que escreveu um livro satirizando e criticando Raymond, chamado “The Empire strikes back” (O Império contra-ataca). Ela, inclusive, foi uma das pessoas trans* cujo livro de Raymond cita de forma pejorativa/deslegitimadora. Além disso temos também Sylvia Rivera, ativista do Stonewall e fundadora do grupo Street Transvestite Action Revolutionaries. Kate Bornstein, importantíssima com vários livros ao longo das décadas de 80 e 90 (e até hoje). Inclui também pessoas mais recentes como Julia Serano e Emi Koyama com seu The Transfeminist Manifesto, de 2001; Patrick Califa que utilizou a palavra transfeminismo pela primeira vez impressa em 1997; e Robert Hill, embora eu tenha ressalvas com o último por em suas pesquisas utilizar vários termos pejorativos (como tranny [traveco/trava]) dessa forma não compreendendo o objetivo transfeminista, a meu ver.
Transfeminismo
Após contextualizar o surgimento e xs teóricxs/ativistas de destaque, resta saber o que quer o transfeminismo. Como exposto acima, o feminismo não deu conta de incluir pessoas trans* em suas agendas, ora por pura ignorância/falta de visibilidade, ora por pura transfobia. O movimento trans* – as pessoas trans* – não estão livres do machismo, assim como as mulheres cisgêneras (não trans*) também não estão. Sabemos que é comum encontrarmos mulheres cis reproduzindo discursos slut-shaming [que condenam a sexualidade das mulheres] ou mesmo retrô-sexismo (piadas de fogão/louça e afins). Também não é incomum vermos falta de credibilidade/solidariedade mesmo entre as mulheres em casos de estupro. Por isso o feminismo é importante, porque como argumenta-se, se todas as mulheres tivessem consciência de sua opressão não haveria necessidade do feminismo.
Assim também é na esfera trans*. As pessoas trans* irão constantemente reproduzir valores machistas e ideais/padrões de beleza geralmente quando transicionam. Irão julgar as aparências de acordo com o padrão de feminilidade ou masculinidade imposto pelo projeto machista de gênero existente e irão reproduzir valores cissexistas dentro da comunidade trans*(por ex. se você não fez a CRS ainda você não é mulher “por completo”; se não fez mastectomia não é homem “de verdade” etc.).
Assim como o feminismo de terceira onda, o transfeminismo se pautou (e ainda se pauta) na teoria queer e estudos pós-coloniais.
Abaixo seguem os principais pontos compilados por mim, no que diz respeito a agenda transfeminista.
1) Combate à violência cissexista/transfóbica
Combate à violência discursiva: O linguajar cissexista reproduzido e naturalizado é nocivo às pessoas trans*, pois reforça certos estereótipos negativos e também a noção patologizante/psiquiatrizante (linguagem médica, por exemplo).  
Combate à violência físico-verbal: reflexo da violência discursiva institucionalizada – palavras e discursos que deslegitimam e ojerizam pessoas trans*; violência física.
Mais exemplos no tópico Terminologia, mais abaixo.
2) Direitos reprodutivos para todxs
Vejam que atualmente o debate sobre direitos reprodutivos não engloba homens trans*. Em parte porque a maioria (percebida) de agentes interessadxs ainda são mulheres cisgêneras e parte pela reprodução cissexista (inclusive por feministas) de que homens não engravidam. Mesmo que saibamos que sujeitos que não possuem útero e são designados como homens/se identificam como homens não tenham a capacidade de gestação, quando excluímos todos os homens desse fenômeno, acabamos por reforçar a ideia de que engravidar é algo somente “feminino” ou inerente à mulher (cis). Dessa forma, caímos novamente na biologia como destino que determina os gêneros: mulheres engravidam e homens não.
Muito embora eu possa entender que a ampla maioria das pessoas interessadas na questão do aborto sejam mulheres cisgêneras, não é novidade homens trans* optarem por engravidar e/ou tendo que lançar mão de abortos (por vezes também clandestinos). Por isso, procurar formas de aborto seguro e/ou gestação segura para homens trans* e estimular a ideia de que a gestação não é algo “feminino” ou exclusivo da mulher cis é um dos objetivos do transfeminismo.
Além disso ainda poderíamos lembrar que em muitos países a esterilização forçada de mulheres trans* é uma grande violência,retira a agência de mulheres trans* no que concerne direitos reprodutivos e isso também é uma pauta a ser considerada.
3) Agência
A agência é um dos elementos principais do transfeminismo, pois a literatura médica e antropológica ao longo das décadas e até hoje considera pessoas trans* como sujeitos sem agência, sem poder de decisão, pois “não compreendem” sua “condição”. Os discursos psiquiatrizadores e patologizadores irão retirar qualquer agência de pessoas trans*, com argumentos que ora utilizam a hormonização (Pessoas trans* tem suas respostas/ações alteradas pela atuação hormonal no corpo, logo não tem capacidade de agência), ora utilizam condição psiquiátrica (pessoas trans* possuem um transtorno mental que as impede de decidir por si, a medicina tem o poder e “conhecimento” para tal, decidiremos por elxs).
Dessa forma, a agência é essencial para retirar essas pessoas do poder médico que as condiciona a um documento oficial pseudo-cientifico e estigmatizador (o DSM), e para que essas pessoas possam vivenciar sua(s) identidade(s) de forma plena. Notem que dar agência a pessoas trans* não significa o completo fim de um procedimento, pelo contrário, pessoas trans* precisam de um atendimento médico seguro – mas que não condicione suas identidades/experiências a “transtornos” ou afins, obrigando-as a um aval médico para existirem no campo político/social ou mesmo jurídico.
4) Desconstrução das identidades binárias
O transfeminismo respeita as pessoas trans* que desejam permanecer no binário de gênero mulher/homem pois trata-se de uma identidade válida e como eu disse no tópico anterior, devemos dar agência para que decidam como desejam viver – da forma mais confortável possível consigo mesmas.
Porém, notamos que as identidades não binárias são bastante vilificadas dentro da sociedade no geral e mesmo dentro do movimento trans*. Não é incomum deslegitimarem Léo Áquila, por ex., por ter dito publicamente que “se sentia um menino que gosta de se vestir de menina”, ou mesmo Laerte/Sônia que prefere não se definir. Assim, pessoas que não se sentem confortáveis nem “de um lado” nem “de outro” são bem vindas e estimuladas, uma vez que esse binário de gênero é uma construção muitas vezes opressiva.
5) Corpo-positividade e/ou empoderamento
Corpo-positividade é um elemento importante também, pois atualmente pessoas trans* sofrem com a estigmatização de seus corpos, nas esferas mais “brandas” como ojerização de seus genitais e/ou corpos dentro de uma perspectiva biológico-cisgênera (mulher-vagina/homem-pênis), até as mais imediatas e violentas como a execução de travestis.     
Esse pensamento binarista dos corpos também é prejudicial na auto-aceitação/empoderamento trans*. Muitas pessoas trans* – e nesse momento posso citar minha própria experiência – são levadas de forma “passiva” (ideologicamente) a acreditar que suas vidas serão melhores após a CRS, ou almejam a cirurgia principalmente por um bem estar social e jurídico (mudança dos documentos). No entanto, criticamos que esse “bem estar” só existe para aquelas que conseguem “passar” como cisgêneras e além disso se existe um “bem estar” ele só existe porque nos condicionamos a norma.
Vejam, não cabe aqui criticar decisões pessoais, mas sim evidenciar um sistema médico-juridico que obriga pessoas trans* a passarem por todos os procedimentos exigidos para obtenção de humanidade (ou seja, existência político-social). Além disso, deixamos aberto as possibilidades de utilizar hormônios ou não, realizar cirurgia ou não, pois não são as modificações corporais que tornarão qualquer pessoa trans* em trans*, e sim a auto-identificação.
Por fim, o estímulo ao empoderamento de seus genitais – como quiserem nomeá-los – e de quaisquer parte de seus corpos, inclusive também do livre exercício de sua(s) sexualidade(s) como veremos abaixo.
6) Da(s) sexualidade(s) das pessoas trans*
De acordo com o DSM, as pessoas trans* “verdadeiras” são assexuadas (sic) e não possuem desejos com seus genitais, almejando só ter relações sexuais após a realização da CRS. Muito embora isso ocorra – principalmente pela construção e reforço da noção de disforia* – sabemos que existem muitas pessoas trans* que se sentem confortáveis em exercer sua sexualidade. O transfeminismo estimula esse exercício para a plena integração social (e sexual) das pessoas trans*, afinal, temos desejos e queremos ser desejadxs, somos homo, bi, hetero, pan, e afins.
Nossa sexualidade existe e não pode ser anulada por qualquer discurso.
7) Terminologia
A terminologia se revelou um ponto importante também, principalmente porque víamos nos termos utilizados previamente um reforço essencialista/biologizante das identidades trans*, assim como também víamos a militância gay invisibilizar crimes transfóbicos chamando-os de homofóbicos.
Das falhas do transfeminismo
O transfeminismo atualmente incorre em muitas das mesmas falhas feministas, principalmente no que concerne raça/classe. No Brasil praticamente não existe movimento e o pouco que tem é classista e racista por não incluir um discurso que visibiliza mulheres trans* negras ou pessoas trans* pobres. Além disso, grande parte do material ainda encontra-se em língua inglesa e a maioria dos termos também ainda estão em inglês. Existe pouco material traduzido e/ou original em língua portuguesa. O Transfeminismo estadunidense inclui, porém, as pessoas dis/non-abled ["deficientes"] em seus discursos.
Conclusão
O Transfeminismo é um movimento novo no geral e novíssimo no Brasil, se é que podemos dizer que existe um movimento no Brasil. Sua proposta inclui desconstrução dos modelos binário de gênero, empoderamento e agência das pessoas trans* no geral, combate à violência cissexista/transfóbica, livre exercício de sua(s) sexualidade(s), direitos reprodutivos inclusivos e terminologia anti-essencialista/biologizante.
Por fim, tentei ser o mais breve possível, mesmo assim a postagem ficou grande – e obviamente não englobou tudo o que se poderia argumentar sobre transfeminismo. Espero ter dado ao menos o pontapé inicial para começarmos a discutir sobre transfeminismo.

Divulgado pelo site Transfeminismo, em 01/10/2012.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Situação das mulheres nas penitenciárias femininas da Paraíba

       
Descrição para cegos: foto de Goretti Laver, sorrindo para câmera.
Quando se fala de penitenciária, inevitavelmente, muitas pessoas pensam num ambiente de violência e perigo, no qual rebeliões acontecem. Apesar de existirem presídios femininos, as políticas de apoio são voltadas para o âmbito masculino. Sobre esse tema a professora Goretti Layer lançou um livro recentemente e eu a entrevistei para o programa Espaço Experimental. Ouça a entrevista aqui. (Luís Marques)

sábado, 9 de agosto de 2014

Meninas e meninos no recreio escolar

Descrição para cegos: crianças jogam futebol no pátio da escola.

Texto publicado pelo blog (http://ensaiosdegenero.wordpress.com/) em 20/01/2014. Nele, o autor faz uma análise sobre a construção das relações de gênero no espaço de ensino. (Rodrigo Andrade). 

Por Adriano Senkevics

O recreio é um espaço privilegiado para se estudar as crianças na escola, por estar mais distante das regras escolares e, portanto, dando mais liberdade para que as interações infantis aflorem. Assim, o recreio acaba sendo também uma oportunidade de se observar como as relações de gênero se constroem no espaço escolar. 

Nessa rede de relações entre meninas e meninos que se expressa no intervalo das aulas, na qual, de modo geral, se faz menos presente os olhares e normas dos adultos, configurações das mais variadas são possíveis. O recreio torna-se palco para construções de masculinidades e feminilidades que fazem jus ao conceito de gênero: relacionais, múltiplas e associadas ao poder. Seguindo essa linha, o estudo de Tânia Cruz e Marília Carvalho (2006) procurou tecer uma etnografia do recreio escolar, descrevendo padrões de interações entre as crianças e o que eles nos diziam sobre as relações de gênero.
Na escola que as autoras estudaram, estavam sendo relatados, pela equipe escolar, casos de “violência” no recreio. Instigadas por tal violência, Tânia Cruz foi a campo procurando enxergar que violência é essa e como ela seria praticada. Viu-se que era comum, entre meninos e meninas, interações nas quais se mesclavam agressividade com elementos lúdicos, visando à aproximação. A essa forma de se relacionar, elas cunharam a expressão “sociabilidade do conflito”.
(...) está dada uma separação entre os sexos – diria mais: uma segregação de cunho sexista – que imputa aos meninos e meninas diferentes lugares, atividades e objetos na escola (assim como fora dela). Ora, já é consensual entre feministas e interessados/as em estudos de gênero que o binarismo está dado. Mulheres de um lado, homens do outro. Nomes, cores, brinquedos, profissões, roupas, expectativas etc, distintos. Tudo tem que ser diferente porque, afinal, eles vieram de Marte; elas, de Vênus.
A segregação sexual, na escola, se expressa por modos peculiares pelos quais meninos e meninas se aproximam. Simplesmente sentar junto com colegas do sexo oposto pode ser problemático, sobretudo entre crianças de menor idade – pois, na chamada “adolescência”, outros elementos entram em jogo na constituição do “ficar” e do namoro. Mas, entre crianças do Ensino Fundamental I, prepondera a noção da homossociabilidade, isto é, interações restritas ou preferidas entre colegas do mesmo sexo.
Assim, o que Cruz e Carvalho (2006) notaram foi que havia um distanciamento entre os sexos nos momentos amistosos (nos quais relações positivas eram construídas entre os pares) e uma aproximação proposital por meio de ações conflituosas, “que pareciam, muitas vezes, ser a única forma possível de estar juntos” (p. 121). Essa aproximação conflituosa, segundo as autoras, se constitui por três principais formas: (1) atividades turbulentas (correias, pega-pegas, perseguições) que polarizam meninos e meninas; (2) episódios de invasão (quando crianças de um sexo invadiam os espaços e brincadeiras das crianças do sexo oposto); (3) provocações verbais ou físicas, incluindo os xingamentos proferidos pelos meninos e, em resposta, os tapas das garotas contra eles.
Quem nunca foi numa escola primária e viu meninas correndo para bater em meninos? Ou o grupo dos meninos interferindo negativamente na brincadeira de pular corda praticada por elas? Ou algumas meninas atravessando o campo de futebol para atrapalhar o jogo deles? Em suma, são situações rotineiras que apontam para os limites de interações entre os sexos. Denotam, por um lado, as tais separações e como se constituem dois universos distintamente caracterizados e até mesmo polarizados. Por outro lado, apontam para as possibilidades de intersecção. Eles e elas, afinal, interagem. Mas não de qualquer forma. O conflito – e alguma dose de agressividade – torna-se constitutivo.
Vale ressaltar que o caráter agressivo que a interação conflituosa possa apresentar não é necessariamente violento. Violência, pois, depende de pelo menos três referenciais: o agente, a vítima e o observador. Naquilo que parece violento aos nossos olhos (adultos) pode se descortinar outras possibilidades, nas quais o lúdico predomina. Não que não apontem para problemas amplos da sociedade – caso contrário, o dito bullying não seria objeto de preocupação. Só que, em defesa das crianças, os sentidos que preenchem tais atividades talvez sejam outros, seja para quem agride, seja para quem é agredido.
Violenta ou não, cabe ainda refletir sobre a configuração dualista que coloca meninas e meninos em lados opostos. Bem, esse é um dos temas mais complexos dos estudos de gênero. Barrie Thorne (1993), de quem já falamos outras vezes neste blog, em sua célebre obra defende que tais conflitos, ainda que lúdicos, reforçam antagonismo entre os gêneros. E, aqui, a autora se refere tanto às oposições entre os sexos (meninas e meninos), quanto aos sentidos de gênero (masculinidades e feminilidades). Portanto, não basta juntar meninas e meninos em um mesmo espaço ou brincadeira – a chamada coeducação – porque as oposições podem persistir. A título de exemplo, mesmo juntos, pacificamente, brincando de casinha, ainda vai existir o papel do pai e da mãe, bem delimitados.
Diluir essas fronteiras é um esforço constante e a meta última da conhecida teoria queer. Começa nos modelos, exemplos, padrões. Passa pela escola, mídia, trabalho, família. Depende de pais, mães, educadores, da sociedade como um todo. É um processo pelo qual lutamos tanto, um sonho que é tributário do feminismo, e que enfrenta inúmeras dificuldades. Há, sem dúvida, exemplos para nos espelharmos. O mais famoso deles é a instituição de Educação Infantil, na Suécia, chamada Egalia. Lá, as distinções de gênero tendem a ser mínimas: um pronome neutro se refere às crianças (similar ao “menines”), elas vestem roupas idênticas, brincam das mesmas brincadeiras. Um paraíso queer, diríamos. Mas, saiu dali…

Vê-se, para concluir, que as fronteiras tidas como certas têm efeitos reais nas interações entre meninas e meninos, discutidas neste texto no âmbito do recreio. Longe de ser um dado fixo, natural ou essencial, baseia-se numa referência sexista que se retroalimenta na sociedade. É um lugar comum. Enfrentar tais constrições é um passo essencial para relações menos conflituosas e mais igualitárias. Entre crianças ou entre adultos. Na escola ou fora dela.