sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Concurso “Iniciativas de Promoção da Igualdade de Gênero” abre inscrições na América Latina e Caribe

Descrição para cegos: mulher mostra uma placa com a palavra "Igual' escrita.
    O Banco Mundial abriu as inscrições para o concurso “Iniciativas de Promoção da Igualdade de Gênero”. Pode participar qualquer profissional da América Latina e do Caribe que tenha experiência em abordagens, programas, políticas, iniciativas, processos, que levem a melhores resultados para as áreas-alvo como a gravidez na adolescência, violência doméstica ou a participação das mulheres nos processos de tomada de decisão.
Será escolhida pelo menos uma iniciativa em cada área e os vencedores vão participar de uma cerimônia na sede do Banco Mundial em Washington, em novembro. Cada iniciativa vencedora ganhará apoio técnico e material para a promoção de seus projetos.
As inscrições vão até 1° de Setembro de 2014. Para mais informações sobre o concurso e para a ficha de inscrição, acesse o site do Banco Mundial. 

Taisa Vieira

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Construindo a igualdade de gênero

Descrição para cegos: cartaz da campanha do 30º prêmio da Igualdade de Gênero.

Em 2005 foi instituído pela Secretaria de Política das Mulheres (SPM-PR) o Prêmio Igualdade de Gênero que, em parceria com o Programa de Pós-Graduação CNPq/MTCI, Secretaria de Educação Continuada Alfabetização e Diversidade (SECAD/MEC), Secretaria de Educação Básica (SEBE/MEC) e UNIFEM – Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher, tem estimulado a produção de conteúdos textuais e científicos acerca das questões de gênero, desigualdade entre mulheres e homens, feminismo e as variadas manifestações de discriminação, raça e orientação sexual.
Atualmente, a premiação se divide em 5 categorias: estudante do ensino médio; estudante de graduação; graduado, especialista e estudante de mestrado; mestre e estudante de doutorado; e escola promotora de igualdade de gênero. Esta última categoria inclusa na 5º edição (2009) premia escolas públicas e privadas do ensino médio, com projetos pedagógicos e ações inovadoras que visam a promoção do ensino pró-equidade, fomentando a temática.
As premiações são computadores e equipamentos de informática (para estudante de ensino médio), bolsas de iniciação científica (para ensino médio e superior), bolsa de mestrado e doutorado, além de valor em dinheiro para as três modalidades de participação do ensino superior.

As propostas para a 10º edição do Prêmio construindo a Igualdade de Gênero devem ser inscritas até 28 de novembro de 2014 por meio do site http://www.igualdadedegenero.cnpq.br/igualdade.html. 

Jéssika Queiroz

O que é transfeminismo?

Descrição para cegos: ilustração de artista Carol Rosseti sobre transfeminismo.
Já abordamos aqui o termo transgeneridade. Agora trazemos as raízes históricas do transfeminismo, no qual são pautadas as lutas por direitos das pessoas trans* e a desconstrução binária do gênero. Deste modo, discutir sobre questões trans* é muito mais falar em identidade de gênero do que em sexualidade. Temos, então, o transfeminismo: mas, afinal, por que houve a necessidade deste empoderamento? (Carolina Ferreira)

Por Hailey Kaas
Introdução Geral
O que é transfeminismo? Como surgiu? O que o difere das correntes atuais do feminismo?
Pode-se dizer que o transfeminismo é uma corrente do feminismo tradicional, porém divergem em alguns pontos, como veremos.
Certamente, o transfeminismo bebeu dos primeiros movimentos feministas e dos conceitos feministas em si. Argumenta-se que tenha surgido no meio da segunda onda feminista, em forma de crítica e de reformulação do feminismo da época para a inclusão de pessoas trans* dentro da agenda feminista. Por isso, a segunda onda feminista foi combatida pelo transfeminismo e por novas correntes feministas (terceira onda) no que diz respeito a essencialização e biologização do corpo “feminino”.

Muito embora a terceira onda do feminismo tenha utilizado um discurso anti-essencialista e anti-biologicista para desbancar a ciência machista que tentava (tenta) comprovar machismo através de estudos altamente duvidosos e ideológicos, a compreensão transfeminista é de que o feminismo falhou nessa luta quando a questão trans* é contextualizada. Muito embora muitas correntes reproduzam com frequência a célebre frase da Simone de Beauvoir, “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher” – já desconstruindo a ideia da biologia como destino – resistem em aceitar mulheres trans* como “verdadeiras” mulheres, ou mesmo quando aceitam, não visibilizam.
O mito da mulher universal foi severamente criticado por Judith Butler no famoso livro “Problemas de Gênero – Feminismo e subversão da identidade”, onde argumenta que a pretensão feminista de haver uma mulher universal que pode ser representada, corre o risco de fracassar. Haraway também critica o mesmo em seu livro Manifesto Ciborgue.
Isso ocorreu porque o feminismo de segunda onda reforçavam a ideia de uma representação universal da mulher, afetada igualmente pelo patriarcado. Nessa lógica todas as mulheres estariam ligadas de alguma forma por um fator comum: sofrerem o patriarcado igualmente.
A terceira onda feminista tentou repensar essa lógica inserindo elementos da teoria queer, afrofeminismo (focando no racismo existente dentro do que se chamou de feminismo branco), teorias pós-coloniais e questionamentos do binário de gênero em si. No entanto, mesmo vendo o esforço de algumas correntes em inserir esses elementos na luta feminista, teveDescrição: http://cdncache-a.akamaihd.net/items/it/img/arrow-10x10.png/tem pouco efeito na prática.
Feminismo Radical
Na década de 70-80 surgiu um forte sentimento anti-trans impulsionado pelo famoso livro de Janice Raymond, intitulado “The Transsexual Empire” (O Império Transexual), onde na mesma linha de livros que argumentam existir uma “ditadura gay”, Raymond alerta sobre o “perigo” do patriarcado adentrar o feminismo na figura de mulheres trans*. Ela também reproduz todo tipo de clichê transfóbico (mulheres trans* não são mulheres de verdade; são homens se fantasiando/querendo capturar o “feminino”; são estupradoras em potencial; etc.). Esse sentimento/corrente feminista é nomeado hoje como “radical feminism” ou radfem, e é severamente combatido pelo transfeminismo e por pessoas trans* no geral, pois são inúmeros os episódios transfóbicos envolvendo feminismo radical (confira aqui na parte “criticism”, ou aqui na parte “cissexism in radical feminism”). 
Teóricxs e Ativistas Transfeministas
As vozes proeminentes do transfeminismo incluíram/incluem a famosa Sandy Stone, que escreveu um livro satirizando e criticando Raymond, chamado “The Empire strikes back” (O Império contra-ataca). Ela, inclusive, foi uma das pessoas trans* cujo livro de Raymond cita de forma pejorativa/deslegitimadora. Além disso temos também Sylvia Rivera, ativista do Stonewall e fundadora do grupo Street Transvestite Action Revolutionaries. Kate Bornstein, importantíssima com vários livros ao longo das décadas de 80 e 90 (e até hoje). Inclui também pessoas mais recentes como Julia Serano e Emi Koyama com seu The Transfeminist Manifesto, de 2001; Patrick Califa que utilizou a palavra transfeminismo pela primeira vez impressa em 1997; e Robert Hill, embora eu tenha ressalvas com o último por em suas pesquisas utilizar vários termos pejorativos (como tranny [traveco/trava]) dessa forma não compreendendo o objetivo transfeminista, a meu ver.
Transfeminismo
Após contextualizar o surgimento e xs teóricxs/ativistas de destaque, resta saber o que quer o transfeminismo. Como exposto acima, o feminismo não deu conta de incluir pessoas trans* em suas agendas, ora por pura ignorância/falta de visibilidade, ora por pura transfobia. O movimento trans* – as pessoas trans* – não estão livres do machismo, assim como as mulheres cisgêneras (não trans*) também não estão. Sabemos que é comum encontrarmos mulheres cis reproduzindo discursos slut-shaming [que condenam a sexualidade das mulheres] ou mesmo retrô-sexismo (piadas de fogão/louça e afins). Também não é incomum vermos falta de credibilidade/solidariedade mesmo entre as mulheres em casos de estupro. Por isso o feminismo é importante, porque como argumenta-se, se todas as mulheres tivessem consciência de sua opressão não haveria necessidade do feminismo.
Assim também é na esfera trans*. As pessoas trans* irão constantemente reproduzir valores machistas e ideais/padrões de beleza geralmente quando transicionam. Irão julgar as aparências de acordo com o padrão de feminilidade ou masculinidade imposto pelo projeto machista de gênero existente e irão reproduzir valores cissexistas dentro da comunidade trans*(por ex. se você não fez a CRS ainda você não é mulher “por completo”; se não fez mastectomia não é homem “de verdade” etc.).
Assim como o feminismo de terceira onda, o transfeminismo se pautou (e ainda se pauta) na teoria queer e estudos pós-coloniais.
Abaixo seguem os principais pontos compilados por mim, no que diz respeito a agenda transfeminista.
1) Combate à violência cissexista/transfóbica
Combate à violência discursiva: O linguajar cissexista reproduzido e naturalizado é nocivo às pessoas trans*, pois reforça certos estereótipos negativos e também a noção patologizante/psiquiatrizante (linguagem médica, por exemplo).  
Combate à violência físico-verbal: reflexo da violência discursiva institucionalizada – palavras e discursos que deslegitimam e ojerizam pessoas trans*; violência física.
Mais exemplos no tópico Terminologia, mais abaixo.
2) Direitos reprodutivos para todxs
Vejam que atualmente o debate sobre direitos reprodutivos não engloba homens trans*. Em parte porque a maioria (percebida) de agentes interessadxs ainda são mulheres cisgêneras e parte pela reprodução cissexista (inclusive por feministas) de que homens não engravidam. Mesmo que saibamos que sujeitos que não possuem útero e são designados como homens/se identificam como homens não tenham a capacidade de gestação, quando excluímos todos os homens desse fenômeno, acabamos por reforçar a ideia de que engravidar é algo somente “feminino” ou inerente à mulher (cis). Dessa forma, caímos novamente na biologia como destino que determina os gêneros: mulheres engravidam e homens não.
Muito embora eu possa entender que a ampla maioria das pessoas interessadas na questão do aborto sejam mulheres cisgêneras, não é novidade homens trans* optarem por engravidar e/ou tendo que lançar mão de abortos (por vezes também clandestinos). Por isso, procurar formas de aborto seguro e/ou gestação segura para homens trans* e estimular a ideia de que a gestação não é algo “feminino” ou exclusivo da mulher cis é um dos objetivos do transfeminismo.
Além disso ainda poderíamos lembrar que em muitos países a esterilização forçada de mulheres trans* é uma grande violência,retira a agência de mulheres trans* no que concerne direitos reprodutivos e isso também é uma pauta a ser considerada.
3) Agência
A agência é um dos elementos principais do transfeminismo, pois a literatura médica e antropológica ao longo das décadas e até hoje considera pessoas trans* como sujeitos sem agência, sem poder de decisão, pois “não compreendem” sua “condição”. Os discursos psiquiatrizadores e patologizadores irão retirar qualquer agência de pessoas trans*, com argumentos que ora utilizam a hormonização (Pessoas trans* tem suas respostas/ações alteradas pela atuação hormonal no corpo, logo não tem capacidade de agência), ora utilizam condição psiquiátrica (pessoas trans* possuem um transtorno mental que as impede de decidir por si, a medicina tem o poder e “conhecimento” para tal, decidiremos por elxs).
Dessa forma, a agência é essencial para retirar essas pessoas do poder médico que as condiciona a um documento oficial pseudo-cientifico e estigmatizador (o DSM), e para que essas pessoas possam vivenciar sua(s) identidade(s) de forma plena. Notem que dar agência a pessoas trans* não significa o completo fim de um procedimento, pelo contrário, pessoas trans* precisam de um atendimento médico seguro – mas que não condicione suas identidades/experiências a “transtornos” ou afins, obrigando-as a um aval médico para existirem no campo político/social ou mesmo jurídico.
4) Desconstrução das identidades binárias
O transfeminismo respeita as pessoas trans* que desejam permanecer no binário de gênero mulher/homem pois trata-se de uma identidade válida e como eu disse no tópico anterior, devemos dar agência para que decidam como desejam viver – da forma mais confortável possível consigo mesmas.
Porém, notamos que as identidades não binárias são bastante vilificadas dentro da sociedade no geral e mesmo dentro do movimento trans*. Não é incomum deslegitimarem Léo Áquila, por ex., por ter dito publicamente que “se sentia um menino que gosta de se vestir de menina”, ou mesmo Laerte/Sônia que prefere não se definir. Assim, pessoas que não se sentem confortáveis nem “de um lado” nem “de outro” são bem vindas e estimuladas, uma vez que esse binário de gênero é uma construção muitas vezes opressiva.
5) Corpo-positividade e/ou empoderamento
Corpo-positividade é um elemento importante também, pois atualmente pessoas trans* sofrem com a estigmatização de seus corpos, nas esferas mais “brandas” como ojerização de seus genitais e/ou corpos dentro de uma perspectiva biológico-cisgênera (mulher-vagina/homem-pênis), até as mais imediatas e violentas como a execução de travestis.     
Esse pensamento binarista dos corpos também é prejudicial na auto-aceitação/empoderamento trans*. Muitas pessoas trans* – e nesse momento posso citar minha própria experiência – são levadas de forma “passiva” (ideologicamente) a acreditar que suas vidas serão melhores após a CRS, ou almejam a cirurgia principalmente por um bem estar social e jurídico (mudança dos documentos). No entanto, criticamos que esse “bem estar” só existe para aquelas que conseguem “passar” como cisgêneras e além disso se existe um “bem estar” ele só existe porque nos condicionamos a norma.
Vejam, não cabe aqui criticar decisões pessoais, mas sim evidenciar um sistema médico-juridico que obriga pessoas trans* a passarem por todos os procedimentos exigidos para obtenção de humanidade (ou seja, existência político-social). Além disso, deixamos aberto as possibilidades de utilizar hormônios ou não, realizar cirurgia ou não, pois não são as modificações corporais que tornarão qualquer pessoa trans* em trans*, e sim a auto-identificação.
Por fim, o estímulo ao empoderamento de seus genitais – como quiserem nomeá-los – e de quaisquer parte de seus corpos, inclusive também do livre exercício de sua(s) sexualidade(s) como veremos abaixo.
6) Da(s) sexualidade(s) das pessoas trans*
De acordo com o DSM, as pessoas trans* “verdadeiras” são assexuadas (sic) e não possuem desejos com seus genitais, almejando só ter relações sexuais após a realização da CRS. Muito embora isso ocorra – principalmente pela construção e reforço da noção de disforia* – sabemos que existem muitas pessoas trans* que se sentem confortáveis em exercer sua sexualidade. O transfeminismo estimula esse exercício para a plena integração social (e sexual) das pessoas trans*, afinal, temos desejos e queremos ser desejadxs, somos homo, bi, hetero, pan, e afins.
Nossa sexualidade existe e não pode ser anulada por qualquer discurso.
7) Terminologia
A terminologia se revelou um ponto importante também, principalmente porque víamos nos termos utilizados previamente um reforço essencialista/biologizante das identidades trans*, assim como também víamos a militância gay invisibilizar crimes transfóbicos chamando-os de homofóbicos.
Das falhas do transfeminismo
O transfeminismo atualmente incorre em muitas das mesmas falhas feministas, principalmente no que concerne raça/classe. No Brasil praticamente não existe movimento e o pouco que tem é classista e racista por não incluir um discurso que visibiliza mulheres trans* negras ou pessoas trans* pobres. Além disso, grande parte do material ainda encontra-se em língua inglesa e a maioria dos termos também ainda estão em inglês. Existe pouco material traduzido e/ou original em língua portuguesa. O Transfeminismo estadunidense inclui, porém, as pessoas dis/non-abled ["deficientes"] em seus discursos.
Conclusão
O Transfeminismo é um movimento novo no geral e novíssimo no Brasil, se é que podemos dizer que existe um movimento no Brasil. Sua proposta inclui desconstrução dos modelos binário de gênero, empoderamento e agência das pessoas trans* no geral, combate à violência cissexista/transfóbica, livre exercício de sua(s) sexualidade(s), direitos reprodutivos inclusivos e terminologia anti-essencialista/biologizante.
Por fim, tentei ser o mais breve possível, mesmo assim a postagem ficou grande – e obviamente não englobou tudo o que se poderia argumentar sobre transfeminismo. Espero ter dado ao menos o pontapé inicial para começarmos a discutir sobre transfeminismo.

Divulgado pelo site Transfeminismo, em 01/10/2012.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Situação das mulheres nas penitenciárias femininas da Paraíba

       
Descrição para cegos: foto de Goretti Laver, sorrindo para câmera.
Quando se fala de penitenciária, inevitavelmente, muitas pessoas pensam num ambiente de violência e perigo, no qual rebeliões acontecem. Apesar de existirem presídios femininos, as políticas de apoio são voltadas para o âmbito masculino. Sobre esse tema a professora Goretti Layer lançou um livro recentemente e eu a entrevistei para o programa Espaço Experimental. Ouça a entrevista aqui. (Luís Marques)

sábado, 9 de agosto de 2014

Meninas e meninos no recreio escolar

Descrição para cegos: crianças jogam futebol no pátio da escola.

Texto publicado pelo blog (http://ensaiosdegenero.wordpress.com/) em 20/01/2014. Nele, o autor faz uma análise sobre a construção das relações de gênero no espaço de ensino. (Rodrigo Andrade). 

Por Adriano Senkevics

O recreio é um espaço privilegiado para se estudar as crianças na escola, por estar mais distante das regras escolares e, portanto, dando mais liberdade para que as interações infantis aflorem. Assim, o recreio acaba sendo também uma oportunidade de se observar como as relações de gênero se constroem no espaço escolar. 

Nessa rede de relações entre meninas e meninos que se expressa no intervalo das aulas, na qual, de modo geral, se faz menos presente os olhares e normas dos adultos, configurações das mais variadas são possíveis. O recreio torna-se palco para construções de masculinidades e feminilidades que fazem jus ao conceito de gênero: relacionais, múltiplas e associadas ao poder. Seguindo essa linha, o estudo de Tânia Cruz e Marília Carvalho (2006) procurou tecer uma etnografia do recreio escolar, descrevendo padrões de interações entre as crianças e o que eles nos diziam sobre as relações de gênero.
Na escola que as autoras estudaram, estavam sendo relatados, pela equipe escolar, casos de “violência” no recreio. Instigadas por tal violência, Tânia Cruz foi a campo procurando enxergar que violência é essa e como ela seria praticada. Viu-se que era comum, entre meninos e meninas, interações nas quais se mesclavam agressividade com elementos lúdicos, visando à aproximação. A essa forma de se relacionar, elas cunharam a expressão “sociabilidade do conflito”.
(...) está dada uma separação entre os sexos – diria mais: uma segregação de cunho sexista – que imputa aos meninos e meninas diferentes lugares, atividades e objetos na escola (assim como fora dela). Ora, já é consensual entre feministas e interessados/as em estudos de gênero que o binarismo está dado. Mulheres de um lado, homens do outro. Nomes, cores, brinquedos, profissões, roupas, expectativas etc, distintos. Tudo tem que ser diferente porque, afinal, eles vieram de Marte; elas, de Vênus.
A segregação sexual, na escola, se expressa por modos peculiares pelos quais meninos e meninas se aproximam. Simplesmente sentar junto com colegas do sexo oposto pode ser problemático, sobretudo entre crianças de menor idade – pois, na chamada “adolescência”, outros elementos entram em jogo na constituição do “ficar” e do namoro. Mas, entre crianças do Ensino Fundamental I, prepondera a noção da homossociabilidade, isto é, interações restritas ou preferidas entre colegas do mesmo sexo.
Assim, o que Cruz e Carvalho (2006) notaram foi que havia um distanciamento entre os sexos nos momentos amistosos (nos quais relações positivas eram construídas entre os pares) e uma aproximação proposital por meio de ações conflituosas, “que pareciam, muitas vezes, ser a única forma possível de estar juntos” (p. 121). Essa aproximação conflituosa, segundo as autoras, se constitui por três principais formas: (1) atividades turbulentas (correias, pega-pegas, perseguições) que polarizam meninos e meninas; (2) episódios de invasão (quando crianças de um sexo invadiam os espaços e brincadeiras das crianças do sexo oposto); (3) provocações verbais ou físicas, incluindo os xingamentos proferidos pelos meninos e, em resposta, os tapas das garotas contra eles.
Quem nunca foi numa escola primária e viu meninas correndo para bater em meninos? Ou o grupo dos meninos interferindo negativamente na brincadeira de pular corda praticada por elas? Ou algumas meninas atravessando o campo de futebol para atrapalhar o jogo deles? Em suma, são situações rotineiras que apontam para os limites de interações entre os sexos. Denotam, por um lado, as tais separações e como se constituem dois universos distintamente caracterizados e até mesmo polarizados. Por outro lado, apontam para as possibilidades de intersecção. Eles e elas, afinal, interagem. Mas não de qualquer forma. O conflito – e alguma dose de agressividade – torna-se constitutivo.
Vale ressaltar que o caráter agressivo que a interação conflituosa possa apresentar não é necessariamente violento. Violência, pois, depende de pelo menos três referenciais: o agente, a vítima e o observador. Naquilo que parece violento aos nossos olhos (adultos) pode se descortinar outras possibilidades, nas quais o lúdico predomina. Não que não apontem para problemas amplos da sociedade – caso contrário, o dito bullying não seria objeto de preocupação. Só que, em defesa das crianças, os sentidos que preenchem tais atividades talvez sejam outros, seja para quem agride, seja para quem é agredido.
Violenta ou não, cabe ainda refletir sobre a configuração dualista que coloca meninas e meninos em lados opostos. Bem, esse é um dos temas mais complexos dos estudos de gênero. Barrie Thorne (1993), de quem já falamos outras vezes neste blog, em sua célebre obra defende que tais conflitos, ainda que lúdicos, reforçam antagonismo entre os gêneros. E, aqui, a autora se refere tanto às oposições entre os sexos (meninas e meninos), quanto aos sentidos de gênero (masculinidades e feminilidades). Portanto, não basta juntar meninas e meninos em um mesmo espaço ou brincadeira – a chamada coeducação – porque as oposições podem persistir. A título de exemplo, mesmo juntos, pacificamente, brincando de casinha, ainda vai existir o papel do pai e da mãe, bem delimitados.
Diluir essas fronteiras é um esforço constante e a meta última da conhecida teoria queer. Começa nos modelos, exemplos, padrões. Passa pela escola, mídia, trabalho, família. Depende de pais, mães, educadores, da sociedade como um todo. É um processo pelo qual lutamos tanto, um sonho que é tributário do feminismo, e que enfrenta inúmeras dificuldades. Há, sem dúvida, exemplos para nos espelharmos. O mais famoso deles é a instituição de Educação Infantil, na Suécia, chamada Egalia. Lá, as distinções de gênero tendem a ser mínimas: um pronome neutro se refere às crianças (similar ao “menines”), elas vestem roupas idênticas, brincam das mesmas brincadeiras. Um paraíso queer, diríamos. Mas, saiu dali…

Vê-se, para concluir, que as fronteiras tidas como certas têm efeitos reais nas interações entre meninas e meninos, discutidas neste texto no âmbito do recreio. Longe de ser um dado fixo, natural ou essencial, baseia-se numa referência sexista que se retroalimenta na sociedade. É um lugar comum. Enfrentar tais constrições é um passo essencial para relações menos conflituosas e mais igualitárias. Entre crianças ou entre adultos. Na escola ou fora dela.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Efeito do marketing na percepção da identidade de gênero pelas crianças

Foto: JeongMee Yoon

Não há muitas regras no mundo da publicidade para além dos limites éticos de quem a concebe e promove. O poder que o Marketing tem na difusão dos padrões, inclusive de gênero, evidencia os reflexos no entendimento de identidade das crianças, não abrindo margens para novas possibilidades, o que faz com que rosa seja para meninas e azul para meninos.
A fotógrafa sul-coreana JeongMee Yoon começou o projeto “The Pink and Blues Project” depois que percebeu que sua filha, então com 5 anos, queria vestir-se e brincar exclusivamente com roupas e brinquedos da cor rosa. Para mostrar essa disparidade, a fotógrafa começou a registrar os quartos de crianças americanas e sul-coreanas juntamente com tudo que tinham na cor rosa e azul. (Jéssika Queiroz)

Confiram:


Yeachan e suas coisas azuis
Seowoo e suas coisas rosa

Sunjae e Seungjae e suas coisas azuis

Sehyun e suas coisas rosas

Steve e suas coisas azuis

Maia e suas coisas rosas

Jimin e suas coisas azuis

Lola e suas coisas rosas

Ethan e suas coisas azuis

Emily e suas coisas rosas

Jake e suas coisas azuis

Dayeun e suas coisas rosas

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Eu não devia precisar de uma desculpa para ser virgem


Descrição para cegos: retrato de perfil de Shae Collins.


Os debates dos posicionamentos do feminismo com relação à sexualidade têm seus pontos mais populares: violência sexual, prostituição e ainda a prática da libertação sexual. Neste último, temos uma das questões: “quão libertas ou castas podemos ser, afirmando que esta decisão não é o patriarcado que a está direcionando?”. O texto fomenta uma reflexão sobre ser virgem e ser feminista, através do relato de uma jovem de 22 anos. (Carolina Ferreira)

Por Shae Collins
Alguns meses atrás, minhas amigas estavam ao redor de uma mesa falando sobre os lugares mais bizarros em que já fizeram sexo. Quando chegou na minha vez, seus queixos caíram com minha resposta. Então, alguém soltou um suave “Awww”, — do tipo que você faz para um bebê, logo depois que ele solta um arroto. Foi a primeira vez que eu admiti para um grupo de feministas que eu era virgem — algo do qual eu tive vergonha por um tempo.
Eu não sou religiosa, não tenho medo de sexo e tenho um namorado incrível há 2 anos, que estaria na minha porta em segundos com uma caixa de preservativos se eu fizesse aquela ligação convocando-o. Além de tudo isso, de vez em quando escrevo para um site sobre sexo chamado ‘Slutist’. Mas, apesar de todos esses fatores, eu sou uma virgem de 22 anos.

Eu sei que 22 anos não significa ser muito velha. Porém, em um país em que a média de idade da perda da virgindade é aos 17 anos, onde adolescentes estão fazendo sexo em programas populares da TV (eu tenho certeza que daqui a alguns anos, até mesmo personagens do canal Disney Channel estarão fazendo sexo), e as feministas têm trabalhado incansavelmente para incentivar jovens mulheres a abraçarem sua sexualidade, 22 anos parece um pouco fim de jogo. Meus poucos amigos virgens e eu somos vistos como os esquisitos.
A maioria das pessoas não entende isso — nem mesmo minha própria mãe, que está começando a se perguntar se algo está psicologicamente errado comigo.
O que minha mãe e meus amigos não sabem é que, assim como eles, eu também não entendo porque não estou fazendo sexo.
“Sim, eu me sinto fisicamente atraída por ele”, expliquei a um dos meus melhores amigos no telefone quando precisei de algum conselho sobre o assunto. “Sim, nós damos amassos — mas não muito mais que isso. Sim, eu tenho certeza que ele é o cara com quem quero estar. Sim, um dia eu vou fazer sexo com ele, mas eu só não sei quando”.
Minha condição de feminista aumenta minha vergonha de ser virgem. No reino feminista a virgindade é frequentemente associada com “o patriarcado”. É uma das metades do binarismo sexista que envergonha as mulheres. Virgens não ganham muito amor ou atenção em círculos feministas, onde tantas mulheres lutaram pelo direito de serem descaradamente sexuais. Feministas têm sites dedicados a preferências e fantasias sexuais, defendemos que tudo se resume ao direito da mulher de ter controle sobre seu corpo e algumas de nós tem orgulho em se denominar putas ou vadias.
Entre minhas colegas e amigas feministas sexo parece ser a norma. E, já que eu não estou fazendo, comecei a me perguntar o que diabos havia de errado comigo. Por que não sou sexualmente liberal como todo mundo? Eu tinha vergonha por ainda não ter abraçado a minha sexualidade. Então, eu tentei me apressar para estar pronta para o sexo.
Eu olhei para o meu passado para explicar a minha condição de virgem, questionando se as muito frequentes conversas sexuais com minha mãe estavam ou não na raiz do problema. Minha mãe seguiu uma linha ‘tradicional” em seu estilo de criação e usou uma tática de 2 passos ao falar sobre sexo: assuste e repita. Ela, constantemente, me questionava se eu estava fazendo sexo ou não e sempre me lembrava das consequências.
“É melhor não trazer bebês para casa”, dizia minha mãe, de uma maneira em parte jocosa, mas obviamente séria. As conversas tornaram-se mais frequentes depois que fui pega beijando um menino na 8ª série. Minha mãe ficou, evidentemente, chocada. Minha reputação de boa moça foi contaminada e eu não conseguia olhar nos olhos de minha mãe. Ela me colocou de castigo por 3 meses, mas eu carreguei a humilhação por bem mais tempo.
Então, eu, assim como muitas meninas com educações rígidas, cresci associando sexo com vergonha, gravidez indesejada e doenças sexualmente transmissíveis.
Porém, me prender ao meu “problema da virgindade” na minha infância não respondeu minhas perguntas, nem me fez querer sair e ter relações sexuais. Então, comecei a procurar maneiras de me “libertar sexualmente”. Escrevi artigos para jornais com títulos como “Onde está a minha agência sexual?” e “Meu monólogo pessoal da vagina”.
Eu considerava a assexualidade como uma possibilidade, porque eu raramente tenho o desejo físico de fazer sexo, mas não tinha certeza. Pesquisar sobre o tema gerou novos temores e perguntas: sou assexuada? Como eu poderia saber se sou assexuada sendo que nunca tentei ter relações sexuais? Se eu sou, meu namorado ou quaisquer futuros parceiros aceitariam isso?
O absurdo girou na minha cabeça e consumiu meus pensamentos durante meses, até que um dia me deu um estalo. Minha voz interior falou para mim como se eu fosse uma criança estúpida: “Shae, mande tudo pro inferno! Se você não está pronta, então você não está pronta. Por que a pressa?”. (Minha voz interior tem um jeito bem agressivo).
Por todas as horas em que eu tinha gasto escrevendo, pesquisando, lendo e pensando sobre a minha sexualidade, eu não estava disposta a aceitar uma explicação tão simples. Mas, eu finalmente percebi que estava jogando o jogo de outra pessoa. Assim como minha mãe, professores e mentores me ensinaram a não permitir que os meninos me pressionassem a fazer sexo quando eu estava na escola, eu tinha que me ensinar novamente a não permitir que as idéias de outras pessoas sobre sexualidade ditassem minha vida sexual.
Eu tenho que constantemente me lembrar que não há nada de errado comigo ou com qualquer outra pessoa que não está fazendo sexo, seja por razões espirituais, histórias traumáticas ou falta de interesse. Eu tinha que perceber que o que é sexualmente “apropriado” ou normal para uma pessoa não significa necessariamente que funciona para todas.
Resumindo: eu não estou pronta. Não há necessidade de vir com alguma desculpa esfarrapada sobre minha infância quando as pessoas perguntam por que eu ainda sou virgem. Não há necessidade de tentar me forçar a fazer algo que eu não quero. E não há necessidade de tentar ser normal.
Sou uma virgem de 22 anos de idade e eu estou bem com isso.

Publicado originalmente com o título: ‘I shouldn’t need an excuse to be a virgin' no site Xojane.com 10/03/2014. Republicado por Blogueiras Feministas (Eu não devia precisar de uma desculpa para ser virgem), em 29/07/2014.

A autora

Shae Collins mora em Los Angeles. É escritora freelancer e criadora do blog A Womyn´s Worth, onde escreve sobre raça, gênero e cultura pop com foco nas mulheres negras.